Trabalho Que Cura

Ex-vendedora de carros, após descoberta de doença incurável, vê na confecção de bolinhos de caneca uma saída para ocupação diária e auxílio financeiro.

 

Ser forte é uma tarefa árdua quando o ser humano se depara com a possibilidade de perder sua vida. Agir naturalmente, encarar os problemas de frente não é fácil quando o indivíduo tem que conviver com uma doença incurável. Esse era o dilema da jovem de 28 anos Karlla de Oliveira Cardozo, que em outubro de 2013 descobriu que tem a doença mieloma múltiplo. Trata-se de uma enfermidade hematológica maligna que afeta originalmente a medula óssea. Ela encontrou nos cupcakes (bolinhos de caneca) uma saída para não entrar em depressão e ainda conseguir uma renda extra para auxiliar nas dívidas da casa.

 

Karlla é casada, ainda não tem filhos, mora atualmente em Goiânia, mas é natural da cidade de Montes Claros-GO. Sua luta começou após uma perda de peso significativa, quando ela passou a sentir dores na parte superior das costas e durante os treinos na academia, preocupada foi procurar ajuda médica. O diagnóstico não passava nem perto das possibilidades de enfermidade que ela considerava ter adquirido. A descoberta do mieloma mudou sua rotina e a forma de ver e enfrentar a vida.

 

Três meses antes de descobrir a doença, a jovem havia saído do emprego, uma concessionária onde trabalhava há cerca de três anos, devido à mudança para outra cidade. Ela começou a luta com o tratamento, e no meio de toda a turbulência se viu dependente do auxílio de sua mãe, sogra e marido, os amigos e demais pessoas que apenas encaminhavam mensagens e às vezes ligavam. Isso, de certa forma, a deixava triste. Karlla então precisava de alguma atividade que a distraísse, tirasse o foco da doença e a agonia de ficar sozinha em casa, quando o marido estava no trabalho.

 

Cupcakes eram a saída

 

A jovem explica que sua ideia inicial era de fazer algo pela sua melhora e que também pudesse incentivar outras pessoas com o mesmo problema a não desistirem de si próprias. “Pensei em vender brincos ou maquiagens, mas isso só me traria renda mais ou menos 30 dias ou até mais depois que começasse a vender, então comecei a fazer doces para festa, mas não era meu forte”, ressalta. Karlla iria perder todo o cabelo em um procedimento que estava por vir e iria chamar as amigas e fazer um chá de lenços, onde serviria cupcakes, no entanto mudou de ideia. Apesar da festa não ter dado certo, as pesquisas quanto às formas diferentes de preparo e decoração dos bolinhos se tornaram corriqueiras e ela passou a fazê-los por encomendas, para parentes e amigos.

 

“Minha mãe era boleira e por esse motivo eu conhecia um pouco de culinária. Do mês de maio deste ano para cá é que comecei de fato minhas vendas, e vêm dado muito certo. É uma terapia para minha cabeça, me distrai”, afirma Karlla. A jovem começou a testar e personalizar a ideia, já que hoje existem outras pessoas no mercado vendendo o mesmo produto. Ela criou uma logo, fez seus cartões e pensou em novas apresentações para o produto. Agora, ela só vende quantidades acima de quatro unidades, os produtos seguem em embalagens personalizadas, com laços e enfeitados com diversas opções de temas e sabores: paçoquinha, coco com abacaxi e brigadeiro. Individualmente, os bolinhos valem R$ 5, mas, dependendo da quantidade, o valor pode sofrer alterações.

 

As vendas são feitas basicamente pela internet, mensagem de celular e nas suas páginas das redes sociais. Karlla tem uma clientela considerada por ela razoável, tendo em vista o pouco tempo de mercado. “As pessoas que compram têm que fotografar e postar em sua rede social o cupcake, elas acham legal e também me ajudam muito com isso, já que a propaganda boca a boca ainda é muito usual e eficaz”, relata. Além disso, ela também costuma vender nas empresas. As encomendas são feitas no local. A empreendedora prefere entregar tudo de uma vez só, o que facilita seu trabalho.

 

Próximos passos

 

Karlla explica que tem muitos planos para o futuro e continuar a venda dos cupcakes é um deles, caso ela não possa voltar a trabalhar novamente com vendas de veículos. “Eu amava meu trabalho, mas se não puder voltar a essa atividade. Pretendo adquirir um quiosque pequeno em um shopping de Goiânia, para continuar o meu negócio”, sugere. Ela ressalta que esta é uma meta, um sonho que ela pretende batalhar para alcançar, já que o investimento para um negócio como este ainda não cabe em seu orçamento, ainda mais se levar em consideração os gastos que têm com o tratamento da doença.

 

Em setembro, a jovem vai dar um tempo na produção, porque está até o momento se preparando para um autotransplante, um tratamento que irá melhorar e muito seu quadro de saúde. “Algumas pessoas tratam o câncer como uma sentença de morte, eu não. Irei fazer o transplante autólogo, tratei meu sangue neste período para que, agora, eles possam usar, o procedimento irá ocorrer no hospital Araújo Jorge, no mês que vem”, explica.

 

Entenda o que é mieloma múltiplo

O médico hematologista Rodrigo Brum von Kriiger,  que acompanha Karlla em seu tratamento, explica que o mieloma múltiplo é uma neoplasia caracterizada por uma proliferação desregulada de plasmócitos (células que estão principalmente na medula óssea), ou seja, um tipo de câncer no sangue. “Ele corresponde a 1% de todas as neoplasias malignas e ocorre com mais frequência em pessoas acima de 60 anos. Somente de 5% a 10% dos pacientes têm menos de 40 anos, motivo pelo qual o caso da paciente Karlla é considerado incomum”, cita. O médico ressalta que a determinação da incidência no Brasil é dificultada pela deficiência nas bases de dados nacionais. Apesar de haver algumas diferenças entre regiões do mundo, calcula-se que sejam diagnosticados entre quatro e dez casos por 100 mil habitantes por ano.

Rodrigo ressalta que, em alguns casos, apesar da proliferação anormal de plasmócitos, pode não haver sintomas. No entanto, a maioria evolui com sintomas e/ou lesões diversas no organismo sendo a anemia, doença óssea (lesões, dor e/ou fraturas), aumento de cálcio no sangue, insuficiência renal e infecções, as principais intercorrências apresentadas. “O tratamento é individualizado e pode-se utilizar quimioterapia, transplante de células-tronco e, em alguns casos específicos, a radioterapia”, diz. Ele esclarece que o prognóstico, ou seja, a previsão do curso da doença tem inúmeras variáveis e deve ser avaliado “caso a caso”. No momento, a cura ainda não é uma realidade, porém o desenvolvimento de novas medicações tem melhorado muito as taxas de sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes.”

 

Fonte: http://http://www.dm.com.br/texto/188335-trabalho-que-cura

This template supports the sidebar's widgets. Add one or use Full Width layout.