12.01.09
12.01.09 PDF Imprimir E-mail
Acredito que muitos de vocês lembrem o que esta data representa para mim. Hoje faz exatamente um ano do meu baile de formatura, um ano da descoberta da leucemia, ou seja, um ano da reviravolta que ocorreu em minha vida.
 
Longe de mim querer ser demagoga, mas me bateu uma vontade enorme de compartilhar alguns pensamentos, apesar de nem saber o porquê dessa vontade repentina, até porque esse tempo todo preferi me manter  reservada nesse aspecto.
 
Lembro como se fosse hoje do momento que recebi a notícia. Não derramei uma lágrima, logo eu que choro com novela e até propaganda. As lágrimas só vieram bem mais adiante. Não sei explicar, mas desde o primeiro momento nunca tive dúvida da minha recuperação. Eu sabia que não ia ser fácil o que eu teria que passar, mas não tive medo. Eu agradeci a Deus por isso estar acontecendo comigo e não com meus pais, meu irmão, ou entes queridos. E prometi a Ele que com Sua ajuda ia conseguir superar tudo da melhor forma, faria tudo que estivesse ao meu alcance para que toda a situação causasse o menor sofrimento possível para todos. E tenho certeza que minhas preces foram atendidas, e continuam sendo.
 
O tratamento a que fui submetida e ainda estou sendo, como todos sabem, é bem agressivo, como na maior parte das quimioterapias. Esse tratamento costuma ferir não apenas o organismo como o emocional dos pacientes, pois traz muitas mudanças, inclusive  físicas, e apesar de ser considerado “o menor dos problemas”, não deixa de ser desagradável e levar muitas pessoas à depressão. Prometi a mim mesma que isso jamais aconteceria comigo, só me importaria com o essencial.
 
Depois de quase 7 meses de tratamento, tendo recebido 4 ciclos de quimio (ou kikí para os mais íntimos), a excelente notícia da minha provável cura. Para mim e toda minha família era a cura definitiva, apesar de sabermos que qualquer câncer precisa de 5 anos para ser considerado curado.
 
Nesses 7 meses minha vida foi completamente diferente, passei a maior parte desse período no hospital, e o resto do tempo em Aldeia. Nessa altura, minha profissão e minha viagem à Europa tinham ficado para o lado.  Meus planos modificaram-se, temporariamente.
 
Quando voltei para a minha casa, estava tanto tempo longe que foi até estranho. Minha casa tinha passado a ser o hospital, aquele cubículo com janelinha, que vi tantos rostos queridos. No começo nem  conseguia dormir na minha cama, me sentia insegura, tudo parecia grande demais, e na minha cabeça, isso podia levar a ter mais vírus ou bactérias. Saí meio com TOC. Minha mão despelava de tanto que eu lavava, era álcool 70 vinte e quatro horas ao meu lado, dentre outras maluquices. Precisei de um mês para as coisas voltarem quase que a normalidade
 
Minha vida não podia estar melhor. A sensação que eu tinha ao acordar era uma coisa incrível. Eu sentia que podia existir pessoa tão feliz quanto eu, mas impossível alguém mais. Fiz a OAB por fazer e terminei passando, quando já estava em Curitiba recebi a notícia que tinha subido de posto de bacharela para advogada. Foi uma sensação maravilhosa ter superado mais uma etapa.
 
Quando dirigi na Av. Boa Viagem sozinha pela primeira vez, tive uma crise de choro. Era muito bom poder estar ali, além da sensação de liberdade e independência, poder passar por um lugar que eu sempre gostei e que foi minha rotina praticamente toda minha vida. Cada lugar que eu voltava a frequentar, tudo era o máximo. Quando fui p Porto então, nem comento. E o melhor de tudo, a companhia das pessoas, as programações ditas como simples, feitas com essas pessoas mais que especiais.
 
E o abraço??????  De que fui privada tanto tempo...
 
Foram os três meses mais intensos da minha vida, não falo de programações, mas de sentimentos. Um turbilhão... Apesar que também tiveram muitas programações
 
Eu estava programando ir para Maceió na semana em que fui para uma consulta de rotina e a Dra. Patrícia constatou que meus exames por três vezes seguidas tinham baixado a imunidade. Como procedimento de rotina, tive que fazer um mielograma, mas ninguém imaginava o retorno na doença, era mais para descartar essa idéia e depois investigar o que poderia ser. No outro dia fui fazer o exame e no outro acordo com minha mãe com os olhos cheios de lágrimas, depois escuto o som de Léo e meu pai chorando da sala. Entendi tudo. Dessa vez eu chorei muito, eu sentia que estava curada, fiquei muito confusa e perdida. Dessa vez o medo me atingiu. Tinha muito medo de fazer transplante e eu sabia que o retorno da doença significava isso. Nesse exato momento Marília liga, sei que contei para ela, mas nem lembro como. Choramos todos juntos e depois fomos para o consultório de Dra. Patrícia, ela queria nos explicar como seria o procedimento, e claro que tínhamos inúmeras dúvidas e questionamentos. Depois precisei de um tempo sozinha para organizar as minhas idéias.
 
Acho que essa notícia foi pior que a própria  descoberta da doença. Pois dessa vez eu já estava exausta, já tinha sentido todo tipo de desconforto e dor, conhecia bem mais a doença, sabia dos riscos...e transplante para mim era como o bicho-papão para as crianças.
 
Depois de três dias triste, com todo tipo de pensamento na cabeça, e o pior que os pensamentos não eram bons. Pedi muito a Deus para que ele me desse coragem e tirasse tudo que fosse de ruim da minha cabeça. Sempre pensei que atraímos o que pensamos e tinha raiva de mim por está deixando o medo me dominar. Acho que esse foi o pior sentimento que já experimentei. Mas não permiti que ele durasse por muito tempo!
 
Durou exatamente três dias, depois vi no meu quadro a chance da cura total, ao invés de 5 anos de incerteza. Aí o medo foi embora e deu lugar ao otimismo. Foi quando divulguei a notícia, decidimos vir para Curitiba (por indicação da minha médica), e minha casa virou uma rave até o dia da viagem, que ocorreu em menos de uma semana. Daí adiante não houve mais espaço para pensamentos ruins.
 
Cheguei por coincidência dia 12 de novembro em Curitiba, hoje, além de fazer um ano da descoberta da leucemia, faz 2 meses que estou aqui. No começo estranhei muito, tudo, a cidade, o clima, as pessoas....mas de acordo com Marília, eu tenho a qualidade de um camaleão, em termos de adaptação. Pode ser, mas eu também não tenho tido escolhas ultimamente, se tivesse com certeza não seria estar passando e nem fazendo minha família passar por tudo isso, mas já que não há o que se fazer, dentre as escolhas que eu tinha, de facilitar ou piorar as coisas, decidi ficar com a primeira. Agora estou bem mais adaptada à cidade e inclusive, estou gostando muito.
 
Procuro maximizar os meus dias, conhecer melhor as pessoas que me relaciono, e apesar de passar a  maior parte do tempo dentro de um quarto de hospital, acredito que isso pode ser muito enriquecedor para a alma. Estou procurando enriquecer a minha.
 
Hoje em dia tenho certeza que muita gente me conhece melhor. Tenho tido também  oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas, dentre médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, recepcionistas, serventes, enfermeiros e outros pacientes e de sentir todo carinho das pessoas que eu já sabia que me dariam e me surpreender com a atenção de tantos outros, inclusive desconhecidos. Sem falar no convívio diário e intenso com minha família, que é minha fortaleza.
 
Procuro aprender a viver, independente da adversidade. E acho que já aprendi um bocado, apesar de achar que esse aprendizado nunca se esgota. E tive o prazer de constatar e sentir inúmeras coisas, que muitas vezes na turbulência do dia-a-dia deixamos passar despercebidas.
 
Hoje tenho certeza que Deus existe e que ter fé é essencial. Sou presenteada todos os dias com o sentimento mais sublime que pode existir que é o dos pais pelos filhos. Os olhos dos meus pais exalam tanto amor que qualquer pessoa pode perceber, eles realmente transbordam amor. Tenho uma família maravilhosa: irmão, avós, tios e primos, sempre presentes, solidários e cheios de amor e disposição.... e os meus amigos e amigas, que além de lindas, são a própria extensão da minha família, uma família escolhida devido ao sentimento e afinidade, apesar das diferenças. Amigas que me emocionam com atos e palavras.... A todas essas pessoas eu nunca terei como retribuir.
 
Descobri que a felicidade literalmente vem de dentro. E hoje apesar da situação que me encontro eu sou bem mais feliz, porquê agora não espero encontrá-la fora de mim, sinto-a diariamente, pois também não espero acontecimentos mirabolantes para isso e muito menos atitudes de terceiros. Sou feliz simplesmente por que tenho tudo o que uma pessoa poderia desejar ter, me sinto amada todos os dias, não há sentimento melhor. E o melhor é que esse sentimento pode ser sentido independente da distância.
 
Descobri que a vida é surpreendente, e pode mudar sua direção de uma hora para outra, mas o bom é que, em contrapartida, também descobri que todos os nossos planos são adiáveis. E que nem sempre o que você julga como a coisa mais importante da sua vida, continua sendo depois que você se vê em outra situação.
 
Descobri que sentimentos ruins só têm poder sobre você mesmo, não acrescentam em nada nossa vida.
 
Descobri como é bom abraçar quem se gosta.
 
Descobri que não há nada melhor do que um dia típico, de rotina, apesar de todo estresse que possa implicar, às vezes.
 
Aprendi que devemos fazer nossa parte independente dos outros.
 
Aprendi que paciência, tolerância e bom humor são virtudes que todos precisamos buscar. Facilita suportar as turbulências.
 
Aprendi que nem sempre o que desejamos é o melhor para a gente.
 
Aprendi que muitas de nossas atitudes equivocadas são fruto da nossa falta de auto-conhecimento.
 
Aprendi que para se alcançar o objetivo desejado é preciso ter foco e perseverança.
 
Aprendi que sentir medo não apaga a coragem.
 
Aprendi que a pessoa pode se sentir bonita mesmo careca e acima do peso, e que muito mais eficaz do que a perfeição estética é a auto-estima.
 
Aprendi o que é saudade e descobri que ela realmente dói, por isso é bom aproveitar a presença das pessoas queridas.
 
Aprendi que são nossos atos, gestos, momentos compartilhados que ficarão quando não estivermos mais aqui. Todo o resto é efêmero.
 
Aprendi a escutar meu corpo e me surpreendi com o poder extraordinário do nosso subconsciente.
 
Aprendi que os sentimentos estão aí para serem expressados.
 
Aprendi que as lembranças revigoram e a esperança alimenta a alma.
 
Descobri que eu sou a pessoa mais feliz do mundo!!! Que amo a minha vida e as pessoas ao meu redor.
 
Eu, do fundo do meu coração, não desejaria outra vida...
 
Meus sonhos e anseios me impulsionam...
 
O amor, dedicação, atenção e esperança de todos vocês me impulsionam.
 
E eu tenho certeza que no próximo 12 de janeiro, vamos poder estar comemorando a vitória!!!
 
Obrigada por fazerem parte da minha vida! Apesar da distância, sinto vocês bem próximos de mim...SEMPRE!!!
 
Lívia Gabriela Alves Reyes