Eu tive leucemia
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Era verão de 2003 e eu me sentia muito bem com meus 41 anos de idade. Não me queixava de nada, exceto de uma dor de cabeça que tinha desde criança e que havia me tratado com acupuntura e medicamentos com bom resultado.
Minha mãe tinha ido ao cardiologista,  o mesmo perguntou por mim. Então ela pediu que marcasse uma consulta, achei desnecessário, mas atendi ao seu pedido. Cuido-me muito bem e a qualquer queixa marco um especialista.

Havia cinco meses que  consultei-me com um pneumologista e o mesmo alertou-me quanto às plaquetas aumentadas - 515.000 deveriam ser 350.000 mais ou menos, contudo, o corre, corre diário, fez-me dar uma descuidada e por este motivo  concordei em ir ao cardiologista que fez um check-up. O cardiologista ao consultar-me, recomendou urgência a um especialista na área de hematologia, pois, as plaquetas estavam exacerbadamente aumentadas.

A especialista solicitou-me outro hemograma em caráter urgentíssimo para ser analisado naquele mesmo dia. O resultado foi igual ao anterior, 985.000 plaquetas. Ela examinou-me e receitou-me AAS e Hidreia, enquanto o resultado do mielograma ( exame específico para detectar problemas no sangue ) chegasse.
Com um mês fui pegar o resultado do exame, e não consegui entender o que significava cromossomos Filadélfia, fiquei um pouco curiosa até a consulta.

Fui sozinha levar o exame, quando ela leu e disse-me: Ah! Eu pensei que era uma coisa, mais é outra! Você esta com leucemia. Eu estava só, nesse momento senti-me morta! Ela acabara de dar minha sentença de morte!
Minhas pernas começaram a tremer, ela não percebeu. Explicou-me algo muito rapidamente e vagamente, solicitou outro medicamento e exame para voltar com trinta dias.  Deu-me um aperto de mão, eu retribui, fui embora.

Sai desnorteada para pegar ônibus e não sabia para onde estava indo, parei por um instante para me recompor, pois, havia lágrimas em minha face e eu não queria e nem podia chegar em casa assim,  nós perdemos papai com câncer.
Ao chegar em casa, liguei reservadamente para meu irmão e desabafei. Combinamos de não dizer nada para a mamãe até que surgisse uma oportunidade. Passados quatro dias.

Era um domingo e ela perguntou-me sobre o resultado do exame; mamãe estava almoçando e eu naquele momento não fiz rodeios e com segurança e cautela pedi que tivesse calma, pois eu estava tranqüila com o que iria expor naquele momento. Fiz o que a médica deveria ter feito comigo: mamãe eu estou com leucemia, porém em paz, não estou com medo e nem revoltada, pois bem sei que hoje existem infinitos tratamentos e recursos onde milhares de pessoas  beneficiam-se com transplantes e com medicamentos de última geração, vivendo uma vida normal, recuperados e retornando ao convívio social. Ela escutou, terminou o almoço calmamente e  disse-me que por ter me visto calma e estruturada,  não estava com receio e que tudo iria acabar bem.

Quando do resultado do mielograma ( confirmando a lmc, leucemia mieloide crônica ), suspendeu o AAS e o Hidreia e  receitou-me o quimioterápico chamado clivec, medicamento que meu plano de saúde ( Bradesco Saúde ) cobria. Na época, custava mais o menos R$ 8.000,00 oito mil reais a caixa para trinta dias.

Tomei esse medicamento por um período de oito a nove meses, período esse em que resolvi procurar outra médica. Neste momento a sintonia com a médica tem que ser total, isso é imprescindível para o tratamento fluir e conseqüentemente dar certo.
Agradeço muito a Deus por ter colocado Dra. Erica Coelho e sua equipe maravilhosa na minha vida.

Assim, passei, a saber, da minha doença,  ter noção e uma   posição clara do que estava acontecendo comigo, sobre o meu futuro próximo. Ela deu as cartas, digo, coordenadas situando-me quanto à doença e   deu-me a liberdade de escolher entre o transplante e o Clivec (medicamento que tomaria indefinidamente), cada caso é um caso.

Pediu-me que fosse para casa, pensasse e retornasse com a resposta! Contudo, já  estava  resolvido dentro de minha cabeça e sendo assim, optei de cara pelo transplante. Ela colocou-me na fila de espera para transplantes. De acordo com os cálculos que havia feito sobre os riscos positivos e negativos, tinha chances positivas quanto ao transplante, então, pensei: só desencarnamos uma vez em cada existência e  no dia marcado por Papai do Céu, além disso, sei muito bem que não há morte, só vida! Vida eterna, assim, estava sem medo de ser feliz, decidida, segura e sem dúvidas do que estava querendo naquele momento de minha vida.

Estou convencida de que o poder da cura vem em grande parte da mente educada para o Positivismo.
As forças da mente sã estão sempre construindo, recompondo os campos organogenéticos.
O pensamento salutar e edificante, flui pela corrente sanguínea como tônus revigorante das células, passando por todas elas e mantendo-as em harmonia no ritmo das finalidades que lhes dizem respeito. O oposto também ocorre, realizando o mesmo percurso, perturbando o equilíbrio e a sua destinação.

Outro facilitador é a questão de deixar de fora o medo! Entendo e aprendi, que o medo paralisa, retém e escraviza. Creio que quando o medo está presente nos nossos empreendimentos, fica tudo mais difícil e complicado tendo uma margem de fracasso no projeto idealizado.
O bom humor também ajuda em uma recuperação saudável e alegre, a queixa e a lamentação em nada ajuda, só nos coloca para baixo!
Até lutei muito para fazer o transplante em Curitiba (estado pioneiro em transplante de medula óssea), contudo
Dra. Erica Coelho explicou-me que todo o protocolo de Curitiba era seguido a risca aqui no CTMO (Centro de Transplante de Medula Óssea) onde fiz meu transplante.

O CTMO é uma extensão do HEMOPE situada dentro do Hospital dos Servidores, antigo IPSEP.
São só três leitos preparados única e exclusivamente para abrigar transplantados de medula óssea, não entrando pacientes com outras patologias.
Os leitos são estruturados fisicamente com todo um aparato especializado desde o ar que circula no bloco aos equipamentos especiais e específicos necessários ao atendimento dos transplantados. Acredito que quanto menor o numero de leitos, menor o risco de infecção hospitalar.
Sem contar que o número de profissionais especializados é muito grande, isso é muito importante.

Acima de tudo, nosso Pai amoroso, a família nesse momento é crucial, é ela quem nos estrutura dando o carinho e a segurança necessária.
Fomos então atrás do provável doador! Entre o casal de irmãos, o teste de minha irmã foi 100% compatível, enquanto o de meu irmão, não!
Deus acabará de  dar-me mais uma chance de vida,  eu aceitei. Nós também temos que ajudar fazendo a nossa parte, para não dar caseira aos nossos Anjos da Guarda.

Gostaria de dizer que: o CTMO aqui de Recife, é nota para lá de mil! Desde o funcionário mais humilde ao diretor geral, são todas pessoas maravilhosas, não encontrei ninguém irresponsável ou mal profissional. Todos trabalham de coração porque gostam do que fazem, não trabalham por dinheiro, muito pelo contrário, até tiram do bolso... Nunca vi isso em canto nenhum.
O fator limpeza e o cuidado dos profissionais em lavar as mãos exaustivamente seguindo todo um protocolo em relação ao transplantado, é algo inacreditável! Isso não existe nem nos hospitais privados de luxo aqui em Recife-Pe.
Minha mãe é uma guerreira, admiro seu desprendimento e força durante as batalhas que travou em nossas vidas.  Doou-se noite e dia, exaustivamente para o meu pronto restabelecimento. Eu a chamo de Dama de Ferro, ela é demais!

Um segredo: antes de descobrir a doença, acabará de entrar para o Centro Espírita Allan Kardec, Lar Ceci Costa. O pessoal de lá é puro amor, me recebeu de coração aberto, recebi muito amor, carinho, e suporte espiritual e psicológico, o que me estruturou a cada passo da minha caminhada, o meu agradecimento a todos.

Quero deixar  bem claro, que respeito todas as etnias e religiões, todas são dignas desde que façam o bem, assim penso.
Toquei nesse assunto para dizer o quanto é importante em nossas vidas, em qualquer circunstância, estarmos em sintonia com o nosso Pai amoroso.
Procure uma religião, seita, não importa qual! A que te faça bem, onde te sintas fortalecido e amado, isso é indispensável.
A experiência nos abre a mente e nos transforma o espírito, ela nos impulsiona para frente.

A leucemia, foi um divisor de águas em minha vida, hoje renasci mais vigorosa, mais segura e amadurecida. Meus valores mudaram e tenho uma compreensão mais vasta e clara a respeito da vida, tenho uma nova leitura e construção de mundo! Vivo em paz valorizando tudo e todos a cada minuto de minha vida. Estou recuperada com um ano e nove meses de transplante graças a Deus, ao amor, carinho,  respeito, atenção, dedicação e profissionalismo que me foi e, ainda me é dispensado. Minha eterna gratidão.

Fica com Deus!
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Recife, 09 de Fevereiro de 2006.