Gabriel De Alta, Mas De Sinal Amarelo Ligado

 

Notícia preocupante: caímos de 87% para 76% de células da doadora. É o que indica o novo exame feito 60 dias depois do transplante. Vamos falar como reagir a esse processo e também sobre os próximos passos a serem dados agora que estou de alta. Lanço, de início, algumas perguntas…

Posso dar um “rolezim” no shopping? Posso almoçar num restaurante? Já posso retomar minha vida normal? Perguntas que tem respostas e que compartilho com vocês a partir de agora.

A primeira alta pós-transplante é uma GRANDE VITÓRIA. Indica que o procedimento funcionou e que o paciente pode evoluir para os passos seguintes do tratamento.

Mas ao contrário do que muita gente pensa, a alta é também o começo de uma nova etapa, que exige ainda mais comprometimento com as ordens médicas. Não é à toa que as palavras mágicas para um paciente submetido a um transplante de medula óssea (além da fé, do bom humor e do otimismo) são a DISCIPLINA e a PACIÊNCIA.

Nessa primeira semana, fui ao hospital todos os dias, para ser medicado, fazer transfusão e passar por exames médicos. Ainda tenho enjoos por conta da medicação. A partir da segunda semana, passarei ao processo definitivo de “desmama” do hospital, quando a frequência diminuirá gradativamente até a liberação total. Até lá, muita, mas muita medicação via oral. Esse processo normalmente dura de 30 a 60 dias. E é claro que estamos falando de um cenário ideal, sem nenhuma intercorrência grave.

Falo isso já que, a partir de agora, passo a ser um bebezão de 1,90m, com um novo sistema imunológico e sem nenhuma vacina (que só podem ser dadas depois de 100 dias do transplante). Catapora, rubéola e outras doenças da mocidade podem estar no meu caminho. Chuta que é “caxumba”!!

Uma simples febre ou diarreia são motivos suficientes para nova internação. Então se isso ocorrer, por favor, não se assustem. É ABSOLUTAMENTE NORMAL! Um passo para trás, para dar dois à frente.

Ao mesmo tempo, tenho liberação dos médicos para ir a um restaurante (que não seja self-service), e até mesmo ao shopping, desde que seja em dias mais tranquilos. Nada de rolezinho com a “thurma”. A máscara será uma grande aliada, assim como o bom senso. Por enquanto, prefiro evitar os passeios.

Quanto ao susto da semana, relativo ao exame que indicou a diminuição percentual (de 87 para 76%) de células da doadora no meu sangue, há explicação (e também alternativas para reverter o quadro).

Isso porque após o procedimento, o TransPlantado começa a tomar imunossupressores (sim, aqueles que fedem a gambá!!) que evitam a rejeição da nova medula ao nosso organismo. Não entendeu? Explico.

Com a infusão das células da doadora, começou dentro do meu organismo uma verdadeira batalha entre as minhas células restantes e as novas células da doadora. É claro que torcemos para que a doadora vença essa guerra, mas se não controlarmos essa vitória com os imunossupressores (que atacam só a nova medula), há a chance de que esta venha a rejeitar órgãos vitais, como pulmão, pele e olhos.

Eis a encruzilhada: se tomar muito imunossupressor, a nova medula perde força, colocando em risco o transplante. Se não tomar, aumentam as chances de rejeições graves.

O segredo: diminuir a dosagem do imunossupressor, ficando apenas um pouco mais exposto às rejeições, e por outro lado aumentando as chances da nova medula vencer a guerra contra o antigo (e doente) sistema imunológico. É o que precisa (e está) sendo feito.

Ainda não entendeu abestado? Pedi para algumas personalidades explicarem com suas palavras. Vejamos:

Anderson Silva, de sua casa em Los Angeles, explicou dizendo que torce “para que a nova medula ganhe por pontos, não por nocaute”.

Oscar Schimidt, por sua vez, disse “que mesmo com a queda de rendimento, a vitória parcial no 3º quarto por 76 a 24 deixa a nova medula perto da vitória final”.

Brincadeiras à parte, confesso que a notícia da diminuição percentual de células da doadora me assustou, mas como nunca recebi nada de mão beijada, concluo que é mais um chamado de Deus para medir minha fé. E vamos que vamos, pois esse novo desafio será pequeno perto de tudo que já passamos. Se Deus quiser. Continuo extremamente confiante.

Achei importante passar essas informações pela lealdade e compromisso que tenho com vocês em retratar o dia a dia de um transplantado sem meias palavras. Nem tudo são flores, mas nem tudo são dores.

Quero aproveitar a oportunidade para agradecer a equipe do Hospital Sírio Libanês, em primeiro lugar pela competência e profissionalismo, em segundo lugar pelo carinho diário que recebi das copeiras, do pessoal da limpeza, das auxiliares de enfermagem, das enfermeiras, dos farmacêuticos, das fisioterapeutas e das médicas (sim, 6 belíssimas e competentes profissionais). Competência e carinho, e cá estou eu vivo e “passando de fase”.

Aliás, já fiz 3 (três!) aniversários por aqui. E teve bolo no dia do nascimento, no dia do renascimento e agora no dia do bota fora. Com 3 aniversários por ano, daqui uns dias serei o velhinho gagá do Luan Santana. Kkkkkkkk.Vejam algumas fotos:

bota-fora

 

jiraya

Além disso, não consigo ficar muitos posts sem mencionar que a ATMO (Amigos do Transplante de Medula Óssea) é – ao lado da minha querida doadora – uma das grandes responsáveis por salvar a minha vida. Bastidores dessa história vão ficar guardados para o livro, que concluí ser inevitável para que possa contar adequadamente essa história.

Quero registrar, por fim, minhas homenagens à uma grande pessoa que nos deixou essa semana. Paty (Patricia Oshiro Brentan) cumpriu seu papel na Terra levando uma legião de amigos a se tornarem doadores de sangue e medula óssea. Sim, os “amigos da Paty” estão por todo lado, de norte a sul do país, formando um novo exército de pessoas informadas e preocupadas com o próximo. Será recebida pelos anjos com tapete vermelho, um exemplo de ser humano. Desejo muito conforto à família, que terá agora uma estrela brilhando no céu. Deve ser lembrada com muita alegria por todos nós, jamais com pesar. Vai com Deus Paty…

paty

Ahhh, antes de despedir, ó o cabelo crescendo…

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Veja essa e outras matérias no blog Transplantado:
http://transplantando.wordpress.com/2014/01/23/de-alta-mas-de-sinal-amarelo-ligado/

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