Como o transplante de medula óssea curou dois portadores de HIV?

Pela segunda vez na história, a medicina alcançou o que antes era impensável. Muito mais do que apenas um tratamento para HIV / AIDS, a ciência conseguiu o que pode ser a cura definitiva. Uma pessoa conhecida apenas como “paciente de Londres” está livre do vírus HIV há mais de um ano, desde que recebeu um transplante de medula óssea. Mas não é qualquer medula, e sim de um doador que tinha uma mutação genética específica, o que o torna imune ao HIV.

Enquanto os investigadores chamam isso de “remissão a longo prazo” em vez de “cura”, outros estão usando a palavra “C”. Pesquisadores relataram o caso na revista Nature, e na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas, em Seattle.

HIV (amarelo) infectando uma célula imune humana (azul).

Em um caso anterior, ocorrido há 12 anos, um paciente foi “curado” do HIV / AIDS. O “paciente de Berlim”, chamado de Timothy Ray Brown, atualmente tem 52 anos e mora em Palm Springs, na Califórnia. Ele foi o primeiro soropositivo a ser considerado “curado” do HIV, podendo ficar sem o uso de medicação e sem a volta do vírus.

“O conceito de uma cura para o HIV está realmente sendo capaz de remover o vírus”, diz David Rosenthal, PhD e diretor médico do Centro para o Adulto Jovem, Adolescente e Pediátrico HIV na Northwell Health em Great Neck, Nova York, que não estava envolvido nos cuidados do paciente de Londres. “Para a hepatite C , podemos curar completamente as pessoas do vírus, e as tornar imunes. O HIV é como a pressão alta; podemos controlar os sintomas, mas não podemos remover a causa.” O santo graal da pesquisa sobre HIV / AIDS tem sido remover o vírus do corpo permanentemente.

Como aconteceu a primeira a cura de HIV por transplante de medula óssea?

Na verdade, a cura do paciente de Berlim foi por acaso. Ele foi submetido a um transplante de medula óssea para tratar não a AIDS, mas sim uma leucemia que o acometia. Os transplantes de medula óssea têm sido usados ​​há muito tempo para tratar esse tipo de câncer no sangue.

O doador de medula óssea acabou por ter uma mutação, que impediu o HIV de invadir as novas células doadas, e além disso, com sua capacidade de combater o HIV. Essas células se enraizaram no corpo do paciente de Berlim, pois é isso que acontece quando se injeta células na medula óssea, que é responsável pela produção de célullas para todo o corpo.

“Um transplante de medula óssea pode transmitir a imunidade ao HIV do corpo de alguém para o sistema imunológico de outra pessoa”, diz o Dr. Rosenthal. Se essa pessoa for soropositiva, as células contaminadas pelo vírus vão morrer (toda célula morre, e nosso corpo está constantemente as regenerando), e novas células sem o vírus vão nascer, as substituindo.

Porém, nem tudo é um mar de rosas. O paciente de Berlin teve efeitos colaterais terríveis do tratamento que quase o levaram a óbito. Em parte por essa razão, os médicos não consideraram esta uma opção viável para todos os pacientes com HIV / AIDS.

Vírus HIV, visto em microscópio.

Como aconteceu a cura do segundo paciente com HIV?

Em 2016, um segundo soropositivo, conhecido como o paciente de Londres, recebeu um transplante de medula óssea de um doador com a mesma mutação. Novamente, o procedimento foi planejado para tratar o linfoma de Hodgkin, não o HIV / AIDS.

Como o paciente de Berlim, este paciente também recebeu drogas imunossupressoras após o transplante. O paciente de Londres interrompeu o tratamento anti-HIV há mais de um ano (em setembro de 2017) e desde então não tem sinais do vírus. Diferentemente do paciente de Berlim, o paciente de Londres não precisou passar por uma experiência horrível de quase morte para colher os benefícios da terapia.

“A dúvida é se o ocorrido nesses dois pacientes se trata de uma remissão, o que significa que conseguimos impedir que o vírus se reproduza temporariamente, ou eles estão realmente curados, e o vírus nunca mais voltará?” diz o Dr. Rosenthal. O paciente de Londres está livre do vírus há bastante tempo, reconhece ele, mas, a essa altura, “ainda é possível que o vírus volte”.

Tratamento agressivo descarta o uso da técnica em demais soropositivos

Hoje, pessoas com HIV podem viver livres de vírus com uma medicação retroviral extremamente eficiente, capaz de praticamente zerar a carga viral do soropositivo

“Antigamente, os medicamentos eram muito mais difíceis, e tinham efeitos colaterais bem piores”, diz o Dr. Rosenthal. “Temos sorte agora que podemos ter muitos pacientes tratados com uma pílula, uma vez por dia. Isso suprime completamente o vírus, zerando a carga viral e tornando-o indetectável”. Isso pode parecer uma cura, mas não é: quando os medicamentos param, o vírus volta.

Então, o caso do paciente de Londres significa que estamos à beira de ter uma cura amplamente disponível para o HIV / AIDS? Não a curto prazo!

“Nós realmente não sabemos o que pode acontecer a longo prazo”, diz o Dr. Rosenthal. “Não podemos fazer transplante de medula óssea em todos os portadores de HIV, e isso por si só, não é um mecanismo sugerido para a cura”. 

Os procedimentos de transplante de medula óssea são violentos, envolvendo drogas pesadas, efeitos colaterais graves e a possibilidade de morte. Mas as notícias atuais “nos ensinam muito sobre o vírus HIV e como podemos criar outras formas de erradicá-lo”, diz Rosenthal.

“Eu não acho que fazer transplante de medula óssea em larga escala seja uma opção futura.”

Os pesquisadores estão rastreando outros pacientes com HIV / AIDS que receberam transplantes de medula óssea de doadores com a mesma mutação que curou o paciente de Berlim.

“Os pacientes estão sendo monitorados para ver como eles se saem, e quão bem eles continuam”, diz Rosenthal. “Se você não tem nenhum vírus que possa ser detectado por um longo período de tempo, quando isso se torna um vírus? “curar em vez de remissão?”

“Tanto o paciente de Londres quanto aqueles atualmente monitorados, nos ajudam a entender como podemos superar o vírus e projetar uma verdadeira cura”.

Fonte: oficinadanet